terça-feira, 8 de junho de 2010

Valores Negociáveis

“Ninguém se vende, até que seja feita a oferta e é nessa hora que os valores vem à tona...” (Kamau)

Quais os valores e princípios que norteam a vida humana? Em quais valores seus pés estão firmados e suas raízes tem se aprofundado? Ao ouvir a música do Rapper Kamau, pude refletir sobre a importância dos valores que os indivíduos constroem no contexto social em que vivemos atualmente no Brasil. Numa sociedade imersa no consumismo, alheamento ao outro e salvação individual, em que as pessoas tendem a valorizar o “ter” e não o “ser”, pode se perceber que a grande massa da população está numa condição vendida diante do sistema instaurado na modernidade.
Vivemos diante de abismos sociais, dentro de um país rico por natureza, mas que poucos desfrutam dessa riqueza. As elites monopolizam a maior parte das riquezas materiais do país e tem um poder de formar mentalidades alienadas ao que é estabelecido como certo. Segundo Jurandir Freire Costa “...as elites desfrutam de uma tranqüilidade ideológica que não tinham antes. Livres da oposição política de esquerda, dos combates dos sindicalistas e da contestação de jovens e intelectuais, elas respiram”.
Pois bem, as elites instauradas no topo da hierarquia social ditam o que se deve pensar, falar, vestir, comer, assistir, ouvir à população brasileira. Como vampiros sanguessugas o povo vai recebendo e sugando essas informações com uma sede insaciável, e assim absorvendo as “verdades” estabelecidas para esses que parecem mais os príncipes da “democracia”. A maioria dos indivíduos tem alimentando a grande sociedade do consumo. Sociedade essa em que consumir é tão importante quanto respirar, vemos paulistanos comentarem sobre a quantidade excessiva de horas que trabalham. Mas para ser um sustentador desse consumismo, só trabalhando cada vez mais e “vivendo” cada vez menos. Assim “ter” é tão importante, que o “ser” é indiferente, então os indivíduos se tornam cada vez mais superficiais em sua essência, desenvolvendo relações vazias e descartáveis. Nessa forma de existir o alheamento em relação ao outro se torna cada vez maior e o que predomina é a salvação individual, o eu está no centro de tudo. O que eu sou, o que eu quero, o que eu tenho, o outro só tem importância quando está proporcionando gozo ao indivíduo.
Acho triste e desprezível ver onde a humanidade está chegando e que tipo de vida tem construído. Penso onde estão os valores e princípios humanos? Como encontrar solidariedade, amor, respeito, comunidade, integridade, amizade, autenticidade?
Parece difícil responder essa pergunta, mas ainda temos chance de buscar uma vida mais humana e igualitária, que pode começar com pequenos gestos e atitudes verdadeiras.
Tenho sempre a inspiração de pessoas que vejo tentar fazer a diferença e expor suas idéias no intuito de provocar a reflexão nos indivíduos e abrir possibilidades de mudança.
Mas há poucos dias me decepcionei com pessoas que no meu ponto de vista considerava desempenhar um papel fundamental em nossa sociedade, digo no sentido de ir contra ao sistema. Pois são artistas que fazem de sua música uma forma de comunicar protesto e resistência. Assim, proporcionam uma visão realista do cotidiano corrompido de valores que temos vivido no Brasil, provocando reflexões nas pessoas, abrindo possibilidades de enxergar o que está mascarado pelos políticos, governantes e elite brasileira.
A decepção está em que, esses artistas da “resistência” realizaram um trabalho em parceria com a Nike, que é uma marca elitizada mundialmente, que tem em sua fábrica trabalho escravo, exploração de trabalho infantil e que monopoliza a sociedade do consumo. Oi? Eu perdi alguma parte da história? Como assim esses caras que inspiram protestos fazendo parceria com uma marca que está no topo da sociedade do consumo, desvalorização do indivíduo e violação dos direitos humanos? Com todo respeito, fiquei engasgada com esse vídeo que assisti dessa grande parceria, ser patrocinado pela Nike? Não dá para entender.
Mas não acredito que o que esses músicos sempre cantaram sejam mentiras, penso que realmente transmitiram seus valores e idéias. Mas diante desse absurdo, penso que houve uma negociação de valores. Como diz Kamau: “Ninguém se vende, até que seja feita a oferta e é nessa hora que os valores vem à tona...”. A única coisa que me vem a mente, é que os valores dessas pessoas são negociáveis e diante da proposta, os princípios foram vendidos facilmente. É incrível como as pessoas tem dificuldade de sustentar seus ideais e preservar sua essência. Não acho que os indivíduos tenham que ser imutáveis, sou a favor da mudança que pode gerar crescimento, mas o que abomino é a transgressão dos valores humanos. Sou a favor do amadurecimento das idéias, mas totalmente contra a corrupção dos ideais.
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Larissa Silva

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Música Viva

"A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende". (Arthur Schopenhauer)

A música é um grande presente divino a existência humana. Percebo como essa arte tem condições de invadir a alma, passear por sentimentos e emoções, transitar no mais profundo âmago do ser. Tem o dom de trazer ao presente memórias preciosas, fazer recordar cheiros e aromas, pessoas e lugares, tempos e estações, aquilo que o coração guardou, mas que a razão tenta apagar.
Seus sons, notas, harmonia, palavras proporcionam uma viagem ao infinito, despertando uma saudade do que não foi vivido, desejo do indefinido, uma vontade de ir além da emoção da canção.
Sentir a música proporciona ver beleza, se deslumbrar com a natureza, descobrir novas vivências. Mergulhar num mundo desconhecido através da pulsão musical que vibra a vida.
Com as canções choramos as desilusões com profundidade no sentir, tendo uma tristeza poética, que após superada, poderá ser revivida a qualquer momento que ouvir a música tema desse sofrimento.
Há instantes que a alma silencia, sem conseguir exprimir o que o que vivencia, mas na beleza das palavras do poeta cantor é possível encontrar espelho para o sentimento e ter nomeado o que não pode ser falado, que quando cantado brota vida no eu interior.
Descobrir paisagens, romper fronteiras, atravessar o invisível, afetar-se pelo intocável, encher os olhos d’água, sorrir com o inesperado, é assim com os sons da canção. Por os pés a dançar, as mãos balançar, o corpo movimentar, a vida a bailar com a alegria que pode nos dar.
Vida que é música, música que é vida, música que ilumina, luz que musifica, música que alegra, alegria vira música, música acolhe tristeza, tristeza que faz música, música que chora, choro que é música, música que brota amor, amor raiz da canção e nascente do cantor.
A música faz a vida mais bonita, como diz o filósofo nos dá a linguagem do coração, que é vivida na verdade da canção.
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Larissa Silva

domingo, 9 de maio de 2010

No amor, tudo pode dar certo!

“Amar também é bom: porque o amor é difícil. O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação”. (Rainer Maria Rilke)

Pensar sobre o amor é não entender os próprios pensamentos. O amor muitas vezes não faz sentido, mas ainda assim ‘tudo pode dar certo’.
Amor: paixão, desejo, ansiedade, medo, expectativa, nervosismo, tédio, angústia, alegria, cumplicidade, egoísmo, tristeza, vazio, felicidade, completude, lealdade, fidelidade, amizade, companheirismo, vazio, indiferença, atenção, espera, chegada, surpresa... realidade.
O que é o amor, como encontrar o amor, existe um amor, há possibilidade de viver um amor verdadeiro?
Refletindo sobre frase de Rilke e fazendo um paralelo com a experiência que a vida me concede, posso concordar com o que o poeta diz. O amor entre duas pessoas talvez seja a vivência mais difícil de ser vivida, mas ao mesmo tempo tão desejada.
Ao prosear com um amigo, conversávamos sobre relações amorosas, então comentei que sentia isso como algo muito difícil de viver. Que tudo em minha vida conseguia ver como possível, pois a maioria dos meus desafios pessoais dependem apenas de mim para serem realizados. Digo, em minha vida profissional, acadêmica, material, espiritual, saúde, estética, cultural... tudo isso abrange outras pessoas, mas na maioria das situações depende do meu trabalho e dedicação para que as coisas aconteçam e tenham êxito. Mas quando se trata de uma relação amorosa é difícil conseguir prever o que vai acontecer e ainda que haja uma entrega intensa de minha parte não basta para que dê certo. Nesse caso, tudo está relacionado a atitude de duas pessoas diante de uma relação, assim, tudo se complica, pois duas pessoas juntas empenhadas num único propósito podem ter muitas dificuldades e limitações para fazer acontecer o amor de modo que seja satisfatório para ambos, ou seja, que proporcione felicidade para os dois envolvidos.
Estou escrevendo e parece que estou racionalizando tanto o amor, como se isso fosse possível. Mas na verdade estou tentando compreender, que por mais romântico e lindo que seja o amor, é um grande desafio vivê-lo. Na vida não existe conto de fadas e nem roteiro de cinema que esteja escrito que a história dará certo e o casal será feliz para sempre.
A vida não é exata: matemática, a vida é abstrata: poesia. E tenho compreendido como é difícil viver um amor verdadeiro. Ao olhar para minha história receio de que nunca tenha vivido uma relação onde desfrutei de um amor verdadeiro, apesar de desejá-lo desde sempre.
Como é difícil encontrar alguém que faça meu coração pulsar para a vida com intensidade e desperte no meu olhar um brilho de viver com entrega. É instigante pensar que amar tem a ver com descobrir numa outra pessoa uma razão para ser melhor para fazê-lo feliz. Uma pessoa que conquistará meu coração para amá-lo como nunca amei ninguém, que sua presença me dará força para lutar pela nossa felicidade a cada instante. Uma relação que irá além da paixão, do encantamento, que transcenderá o desejo pelo toque na pele e o chamego no ouvido. Mais que isso, desejo um outro ser que queira construir junto comigo uma história constituída de cumplicidade, transparência, companheirismo, renúncia, entrega, carinho, lealdade... o compartilhar da vida, o estar junto até que.
Não quero uma relação firmada num contrato, no qual na quebra de alguma clausula o compromisso se desfaz como bolha de sabão que estoura no ar. Quero viver uma relação firmada numa aliança, onde vivamos com autenticidade, pureza, paz, amor, que haja lealdade em cada momento de convivência, que nos suportemos em nossas imperfeições, sejamos dispostos a atravessar o óbvio, que sejamos tolerantes e amáveis no dia mau, tenhamos a disposição de recomeçar, sabendo que no amor sempre existe a possibilidade de que tudo pode dar certo. E que se por alguma desventura do destino um dia não possamos permanecer juntos, tenhamos a consciência de que deu certo enquanto foi possível e possamos guardar a amizade de uma vida compartilhada com verdade.
Não pretendo viver uma ilusão, mas sendo realista e tendo ciência das limitações e deformações humanas, das desventuras da vida, ainda assim acredito no amor verdadeiro entre duas pessoas. E creio que desejando viver como quem procura uma parte de si próprio num outro ser, tendo a certeza que em algum momento mágico de minha história poderei encontrá-lo e viver o amor em sua plenitude é que sigo caminhando, sabendo que estou cada vez mais perto desse amor que é parte do que faz minha vida ter sentido.
Percebo que a vida tem me lapidado pois tenho me permitido amadurecer com as vivências de minha história. Dessa forma, sinto que estou me preparando para viver o amor verdadeiro. Mas também sei que essa busca é um desafio para a vida, o que desejo não se encontra no comum, tem que ser garimpado para ser achado e apesar de por vezes parecer impossível encontra-lo, sinto-me impulsionada a lutar com garra para conquistar o que é a minha verdade.
Sim, o amor é muito difícil, proporciona grandes alegrias e profundas tristezas, mas nele sempre: tudo pode dar certo. Acredite sempre no que sua alma anseia viver a todo instante. O âmago do meu ser anseia por amor, reconheço essa busca e sigo em direção a esse encontro, que poderá ser o mais belo, profundo e intenso em minha história. O grande encontro com o amor!

Larissa Silva

terça-feira, 4 de maio de 2010

O viver com você!

“Estrela natureza, precisamos demais, te ter sempre por perto, na calma e santa paz. Nos morros e nos campos, no sol e no sereno, zelando por florestas, cuidando dos animais. Mulher e mãe de todos, o que será de nós, se a força do inimigo calar a tua voz, que sai dos passarinhos, dos mares e dos rios, dos vales preguiçosos, dos velhos pantanais”. (Sá e Guarabyra)
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Tenho pensando muito em você e percebo o quanto tenho sido ausente e indiferente com sua vida durante minha caminhada, escrevo para você estrela natureza. Num cotidiano tão corrido, com uma jornada onde sempre tenho uma agenda ocupada e cheia de preocupações e informações, que faz parte de minha realidade constante nessa vida metropolitana, percebo como vou me acostumando nessa cidade cinzenta de poluição, artificial pelo excesso tecnológico e materialista com seus prédios luxuosos.
Há algum tempo fui viajar para um lugar mágico, uma cidade onde parecia mais um vilarejo e lá a natureza reina. O lugar é Visconde de Mauá/RJ, foi encantador o tempo que estive lá, contato tão puro e real com o que de mais belo e verdadeiro se tem em nosso planeta. As águas correntes do rio, ouvir o barulho das correntezas da cachoeira, observar aquelas lindas montanhas, ouvir o intenso som dos fortes ventos, ver os peixes nadando vivamente, uma vivência atípica e maravilhosa. Houve um momento que me sentei na pedra e me concentrei em olhar aquela cachoeira e observar seu fluxo, tocar em suas águas e enxergar sua grandeza, era como seu eu sentisse rios fluindo no meu interior trazendo vida e me enchendo de paz. Senti-me renovada e pude me deixar envolver pela pureza da Natureza. Voltei de viagem me sentindo límpida, uma sensação incrível de ser parte de um universo tão belo.
Mas com o decorrer dos dias, essa sensação foi ficando distante e não fiz algo para trazê-la de volta, ou seja, não procurei estar perto da vida na natureza e ter equilíbrio com essa paz que ela proporciona. E ainda não me esforcei em valorizá-la e cuidar para que ela sempre cresça e permaneça.
Pois bem, recentemente estive numa palestra sobre as lições da natureza e pude novamente ser impactada pela verdade que ela possui. Enquanto o palestrante falava, por vezes meus olhos ficaram marejados e pude perceber o quanto preciso da estrela natureza, tenho necessidade de participar de sua existência e responsabilidade em cuidar de sua vivência. Ela está tão acessível e pronta a se relacionar comigo, mas o quanto tenho deixado a desejar em minha entrega para ela que detém a verdadeira vida.
Penso, o quanto nós seres humanos estamos destruindo o planeta e desvalorizando nosso maior bem, perdendo o que temos de mais rico, essencial, puro e necessário. Sem a natureza não temos nada e nem somos nada, mas como é difícil compreender e tomar esse fato como verdade. A medida de que tivermos consciência disso, seremos participantes de sua vida e estaremos em equilíbrio com ela. Assim, teremos o compromisso de investir dedicação, cuidado, relacionamento, presença, tempo, recursos, responsabilidade, amor com a natureza e poderemos desfrutar de seus presentes maravilhosos e de sua harmonia abençoada.
Quero viver com você, desejo estar com você, decido me relacionar com você e aprender a ter uma vida em equilíbrio com sua existência e harmônica com seu universo.
Assim, anseio por me alegrar com os pássaros cantando, com o Sol aquecendo o dia, a Lua iluminando a noite, a chuva regando o solo, as flores embelezando a primavera, o vento que faz crer que o invisível existe, a água que sacia, as árvores que trazem sombras para o descanso e frutos para o alimento e as rochas mostrando o quanto forte posso ser. A natureza é um grande presente nos dado por Deus e precisamos amar essa benção que temos como nossa vida, que é o que realmente ela é. Precisamos descobrir essa verdade e tomarmos posse dessa realidade.
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Larissa Silva

domingo, 18 de abril de 2010

Travessia

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos". (Fernando Pessoa)
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Travessia, que vivência difícil e dolorosa.

Enxergar diante de si uma ponte a ser atravessada, mas perceber que percorrer não é tão simples como pode parecer.

Nos versos de Pessoa, ele diz sobre um tempo de abandonar nossas roupas usadas, deixar os velhos caminhos, ou seja, abrir mão de nossa zona de conforto para arriscar numa nova estrada que descobriremos no decorrer da vida.

Deixar um lugar seguro, conhecido, talvez previsível é uma tarefa árdua, um luto de uma fase importante em nossa vida. Deixar de habitar um lugar, uma circunstância, um grupo de pessoas, identificações que noutro tempo era tão parte de mim, para me lançar numa busca do que quero ser.

Sei que aquelas roupas que antes me eram tão confortáveis já não me servem mais, mas encontrar novas roupas que caibam em mim e me façam sentir que sou eu de novo com verdade, é um grande desafio.

Sinto-me desabitada, não sei nomear o que está em mim. Brota em mim um anseio profundo por uma terra segura, por confiança em algo ou alguém.

Isso que está dentro de mim, que é tão real, mas questionável, um nó na garganta que faz e se desfaz, numa tentativa de reconstrução de minha identidade, de uma nova definição do meu lugar no mundo.

Inquietação que passeia pelo meu corpo, coração, mente, pensamentos, emoções, forte e profunda que quer encontrar um descanso.

Me encontrar em meio a travessia, saber que consegui sair do que já é passado, e saber que o que encaixava, que servia para minha vida anteriormente já não serve mais. Não adianta olhar para atrás e tentar voltar, já foi, está feito a despedida e vou vivendo o luto.

Enxergo que estou no meio da travessia, mas ainda não consegui avistar o que tem do outro lado da ponte, quem serei e que lugar habitarei quando chegar lá. Querer segurar numa mão e sentir paz, mas é tão difícil alguém que consiga compartilhar o meu real.

Sei que estou me descobrindo, para que eu não fique a margem de mim mesma, mas que consiga ser autêntica na vida que Deus me concedeu como presente. E como ser presente em mim. Como me habitar? Quero verdade, esperança e fé para encontrar uma vida com amor.

Como é difícil reconhecer a falta, a ausência, a solidão em minha existência. Uma solidão que não é só da ausência do outro, mas de si mesmo, de não se encontrar e assim uma sensação de não pertencimento. Quando não pertenço a mim, não poderei pertencer a um outro ser. Preciso me enxergar, reencontrar meu espelho, meu mundo, amadurecer e ter condições de me construir e assim conseguir colocar meus pés do outro lado da ponte me reconhecendo como parte desse novo habitar.

Olhos marejados, medo do novo, angústia no caminhar, dificuldade de acreditar, mas permaneço trilhando a historia de minha vida, tendo a expectativa que essa é uma rica fase dessa travessia e que em breve a vida brilhará em meus olhos e o amor reinará em meu coração.

O melhor dessa vivência é transformar meus sentimentos em palavras, essa tentativa de traduzir na escrita a experiência vivida.

Claro, sempre será apenas uma tentativa, o âmago do meu ser pede muito mais do que escrever. Mas é o que tem para hoje. É isso.


Larissa Silva

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O verão há de vir

“Ser artista não significa calcular e contar, mas sim amadurecer como a árvore que não apressa a sua seiva e enfrenta tranqüila as tempestades da primavera, sem medo de que depois dela não venha nenhum verão. O verão há de vir. Mas virá só para os pacientes, que aguardam num grande silêncio intrépido, como se diante deles estivesse a eternidade. Aprendo-o diariamente, no meio de dores a que sou agradecido: a paciência é tudo”. (Rainer Maria Rilke)

Ao refletir sobre as palavras de Rilke, me deparo com a vida e penso como esse verso está ligado ao processo de viver, que entendo como uma grande arte.
No desenvolver de minha história vejo como sou tentada a querer controlar a vida, as circunstâncias, ações, como se a vida fosse matemática que se pode contar, ou um jogo de lógica que se pode calcular e ter a exatidão de um resultado preciso.
Não, não é assim que funciona o mundo real. Quando decidimos desvendar o véu da ilusão e tentar enxergar as coisas como de fato são, podemos perceber quanto é difícil entender.
Por vezes, tentamos desenhar um plano de vida de forma tão exata, como se a vida se resumisse a um projeto tecnológico. Onde o desenvolvedor tem controle sobre cada etapa do que sucederá dependendo de suas ações.
A vida é mais que isso, é como um mar de profundezas, um céu de descobertas.
Deixar de controlar para confiar é difícil, mas um desafio muito enriquecedor. Pensar na importância de não tentar entender tudo, mas sim reconhecer suas dificuldades e potencialidades. Enxergar o que se é, o que se quer, valorizar seus princípios, e aí então fazer suas escolhas pode ser uma grande sacada, ou seja, ser autêntico na arte de viver.
Diante da possibilidade de ter autenticidade no viver como essência, sendo parte de sua verdade, pode nos ajudar abrir mão do controle exacerbado do presente e do futuro, assim contribuir a ter confiança que o verão que há de vir. Confiar que existe belas flores e frutos doces que podem ser colhidos no porvir.
É tão lindo quando vivemos com verdade e deixamos a vida acontecer com naturalidade, enfrentando os desafios, lidando com as dificuldades, aprendendo com as frustrações, chorando com a dor, afetando-se com as alegrias e agradecendo pela presença do amor.
Reconheço que não é fácil, a vida é cheia de surpresas e não saber o que irá nos suceder é angustiante. Mas precisamos nos descobrir todos os dias, enxergar em nosso interior quem somos e buscar nisso uma força para acreditar e confiar no que diz o poeta que “o amanhã será como Deus quiser”.
É preciso desfrutar a vida com verdade e acreditar que o melhor virá, como diz Rilke “se tivermos paciência o verão há de vir”.
Proseando com um amigo, ele comentou que não é fácil acordar a cada dia e acreditar que é possível. Concordo com ele, é um desafio, mas crer, ter fé que podemos é um dom que pode ser aperfeiçoado a cada momento que topamos viver e nos traz maturidade para crescermos e nos fortalecermos.
Essa maturidade nos prepara para receber as dádivas de Deus e aproveitar carinhosamente a boas surpresas que a vida nos proporciona.
É tão bom quando vemos que não nosso controle, mas sim nossas atitudes sinceras e verdadeiras resultam em vivências felizes. Que ter paciência no inverno da vida pode resultar em alegria no verão de nossa história.
Quando houver silêncio em mim, que não seja de desistência, mas de paciência. Porque o que é eterno existe para quem é paciente.
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Larissa Silva

quinta-feira, 1 de abril de 2010

CORAGEM, Um Sonho Possível!

Enfrentar a vida com coragem. Penso a coragem como um dom, uma capacidade para viver a vida com verdade e autenticidade.
Assistindo o filme “Um sonho possível” tive minhas emoções afetadas e repensei sobre a presença da coragem em minha vida. A história do filme baseada em fatos reais, conta sobre uma mulher que adota um garoto e a partir disso a história da vida de ambos é transformada. A atitude dela foi de uma coragem com sua vida, com sua família e com aquele garoto.
o momento que ela percebe a necessidade dele, ao se deparar com o fato de que ele não tinha um lar e uma família, ela decidiu ser alguém por ele. Ela assumiu sua verdade, em querer se dar por aquela vida, mostrou seu desejo ao marido e aos filhos, correndo o risco de uma discordância familiar. Mas a coragem que teve para enfrentar esse desafio despertou o desejo de sua família em assumir aquela decisão como uma verdade deles e pagar o preço por isso. Admiro como ela expôs seu coração a um outro ser e se deixou ser afetada de forma tão profunda e significativa. Ela demonstra isso com sua fala: “- Você está mudando a vida deste garoto. Não. Ele que está mudando a minha." (Um sonho possível - 2009)

Esse contexto me impactou de forma peculiar. Acredito que essa “coragem” da personagem despertou sentimentos profundos em minha alma. Me identifiquei, me enxerguei.
Percebo que o cotidiano de vida no século XXI ao qual estou inserida, ou seja, a vida metropolitana em São Paulo, induz as pessoas a serem superficiais em suas vidas e com os outros. Diante de tantas exigências emocionais, profissionais, tecnológicas, conhecimentos, relações, é difícil ser autêntico, verdadeiro e ter a coragem de se comprometer em SER o que realmente se é ao escrever sua história de vida.
Uma série de representações, jogos, personas constituem a vivência humana, um emaranhado de atuações em circunstâncias diversas. Ao pensar quando de fato o indivíduo consegue expor o que se é, enxergar o que se é, aceitar o que se é, ser o EU que realmente se é, muitas vezes parece distante essa atitude de verdade consigo.
O âmago do ser humano busca por verdade, amor, completude, mas nossas defesas humanas parecem não perceber a real necessidade do seu SER. E assim age como estivesse satisfeito com o que é raso, fácil, comum, descartável e aparente. Aceitam assim viver numa conspiração de fingimento, com uma satisfação ilusória com o que lhe é externo sem valorizar a importância do que lhe é interno, a essência da alma humana.
Assim, vejo que a personagem do filme “Um Sonho Possível” interpretada por Sandra Bullock teve a coragem de aceitar o desejo profundo em sua alma de se solidarizar com aquele garoto, trazê-lo para sua vida e permitir que ele mudasse a história de sua vida e família. Deixando com que a afetividade, amor, cumplicidade despertassem com coragem em seu SER. Diante das críticas da sociedade que vivia, da exposição de seus filhos àquela situação, ela assumiu as rédeas de sua vida e foi quem realmente ela era. E assim encontrou o sentido e o real significado de sua existência. Como disse lindamente o personagem que fazia seu marido: sei que ajudar as pessoas traz a você uma satisfação incrível.
Que essa reflexão traga a minha existência a CORAGEM de SER o EU que realmente eu sou. Me coloque para fora, me desperte para o que o âmago do meu ser pede a mim. Que realmente eu VIVA a vida, desfrute com entrega e verdade das relações com o outro e dos desafios que diante de mim se apresenta. Podendo perceber a beleza da natureza, a importância do outro, o conforto da família, o presente da amizade, a dignidade do trabalho, a grandeza da solidariedade, a emoção da música, a resposta da arte, a riqueza do conhecimento, a vida no amor e a verdade em Deus.
Que eu tenha o prazer de enfrentar a vida com coragem sempre, que a Coragem seja para mim Um Sonho Possível!
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(Larissa Silva)